
Bailaria de Jasmim
Catarina tinha inspiração para falar as palavras mais bonitas, Mais dóceis e mais completas. Tinha vontade de escrever espetáculos de madrugada e sentia exata vontade de dançar todo o tempo. No final do dia, subia na laje da casa e dançava inventando suas coreografias. Sentia-se feliz por estar viva.
O sol se punha, a margarida estava pronta para se abrir em algum lugar. Por isso ela sempre dizia:
- Margarida dos ventos, me traga a paz interior. Faça-me sorrir mesmo quando dentro de mim meu coração chore. Faça-me sentir as cintilações da vida. Não me faça ver tudo preto e branco. Faça-me jurar amor eterno.
Ela descia a laje com dificuldade, porque a escadinha que a levava até o topo estava velha. Ela não desistia.
Pegou um copo de café e sentou-se na mesa. Catarina estava exageradamente magra e ainda deixava de comer muito para poder dançar. Para quem não sabe, Catarina dançava balé clássico. Era leve como ela mesma sabia. Dançava com o coração, este, refletia todo amor em seus movimentos perfeitos.
Tinha apenas uma sapatilha preta e dois olhos da mesma cor. Um pescoço comprido e um sorriso largo. O problema da bailarina era a tristeza que carregava nos olhos e a falta de confiança que carregava na mente.
Catarina era sóbria. Tinha uma casa pequena e aconchegante, no canto esquerdo da sala de televisão, se via um pôster de bailarina pregado na parede descascada. No outro canto tinha uma bíblia e um pequeno altar, onde passava um bom tempo orando pedindo forças, mas força na mente e não no corpo. Quase não se via pessoas dentro da casa dela, além dela mesma.
Morava sozinha, porque aos dezessete anos deixou a casa no interior para dançar na capital. Entrara na companhia de dança e seu primeiro espetáculo foi inesquecível. Mais ou menos assim:
Ela entrou no camarim. Passou um pó de arroz bem claro e ficou alva como a neve. Era uma maquiagem linda. Sua roupa era branca com um bordado em pérola. Que destaque maravilhoso. A música naquele momento ecoava nos ouvidos de Catarina e ela sabia cada nota da musica, cada pausa, cada movimento.
Estava sozinha, como em quase todos os momentos de sua vida depois dos dezessete anos. Era um solo de bailarina. Iria dançar e mostrar para o publico a capacidade que lhe fora atribuída por Deus. Ela cheirava a Jasmim e tinha uma mancha amarela na parte de trás de seu vestido.
Ouvia-se de bem longe:
- Comece o espetáculo agora!
Ela precisa colocar suas sapatilhas para bailar ao rumo dos ventos. Ela só tinha uma sapatilha preta e foi com esta mesmo que ela entrou no palco.
A pobre bailarina ouviu sua música como uma valsa triste. Emocionou-se ao ver na platéia três bons espectadores de mil lugares.
A valsa tocava e dentro de seu peito Catarina chorava, mas dançava e dava seu melhor. Depois de um tempo, seus olhos choraram, a música era de acordes tristes e a platéia chorou ao ver a bailarina de porcelana chorando. As lágrimas se misturavam ao pranto.
Só ela não percebia que o publico de três pessoas se emocionou como se fossem mil pessoas assistindo ao espetáculo. Os movimentos suaves, os olhos chorosos e firmes.
Não é possível narrar os movimentos que as mãos faziam. Não se pôde imaginar na Terra um espetáculo mais encantador.
No final do espetáculo ela olhou firme para os três brilhantes espectadores e sorriu.
Sorriu como se tivesse na alma uma esperança eterna.
Um senhor gordinho sorriu de volta. E os três senhores aplaudiam e choravam ao mesmo tempo.
Este mesmo senhor, ao ver a bailarina saindo disse:
- Volte
Não deixe que dentro de mim fique o pranto.
Bailarina de Jasmim, a que lugar você vai?
Um magro senhor de cabelos brancos ainda disse em seguida:
- Volte
Não deixe a platéia chorar de dor ao ver você partir.
Dance todos os dias para o pranto se quebrar.
Um rapaz de olhos firmes ainda falou:
- Volte
Meu coração não terá paz se não ouvir a sua voz.
Bailarina dos sonhos meus.
Mesmo com as palavras dóceis, ela partiu.
Este jovem rapaz de olhos firmes amou a bailarina desde seu primeiro movimento.
Catarina deixou de ensaiar no teatro e ensaiava na laje de sua casa ao entardecer o mesmo espetáculo.
O pobre jovem ia todos os dias sem descanso ver a Bailarina de Jasmim, sem ao menos saber seu nome. O teatro permanecia fechado. E mesmo assim, ele ia todos os dias sem cessar.
Catarina perdeu o contato com a família. Não tinha como ganhar dinheiro. Nunca tinha trabalhado na vida. O pior é que nunca mais deram a ela a oportunidade de dançar.
Ela acordou de manhã, colocou sua roupa de bailarina. Ela acordou de manhã para a vida. Em frente ao teatro, que tentou lhe dar um ponto final, tinha uma praça. E às nove horas da manhã do dia vinte e cinco de junho pode se vir à doçura espalhada no ar. Uma bailarina de movimentos perfeitos dançando para o maior público que já se ouviu falar. Não tinha rádio para ecoar a música, mas a música estava dentro das pessoas que assistiam a bailarina de Jasmim dançar.
O jovem rapaz de olhar firme virou a esquina para ir ao teatro encontrar a bailarina. Naquele dia ele sentia dentro de seu coração a doçura do Jasmim. Estava um frio enlouquecedor.
As pessoas aplaudiam, mas a bailarina estava perdendo aos poucos os movimentos. O frio era maior.
O rapaz de olhar firme foi o único que percebeu que a bailarina estava morrendo aos poucos.
A multidão não o deixava chegar perto. Ele tentava alcançar o cheiro do jasmim, mas não conseguia.
O cheiro ficava forte à medida que ele chegava perto, mas a bailarina caiu como uma pluma ao chão.
Dentro dele, tinha uma voz que dizia que não era tarde demais.
Ao pegar a bailarina em seus braços, tirou uma de suas blusas e a envolveu, a blusa parecia tão grande. Ele entrou em pânico ao sentir a face da bailarina, a qual estava fria como o gelo.
Um filme passou em sua mente, a primeira vez que viu a bailarina. Seu pranto ao ver que não tinha público, viu passar em sua mente, um sorriso com o coração. Não era justo o que estava acontecendo.
Com num momento mágico. A bailarina abriu os olhos. Meio sem jeito, sorriu para ele e disse:
- Sabia que ao cair você estaria aqui ao meu lado para me levantar para a vida.